Obra representativa do humanismo português, essa peça teatral tem por fim ilustrar, por meio de alegorias e personagens-tipo a sociedade portuguesa da primeira metade do século XVI.
Os escritos de Gil Vicente são divididos em duas categorias, dependendo da natureza de seu conteúdo: podem ser farsas (obras que refletem uma preocupação mais moralizante, embasadas em exemplos da sociedade, como casamentos por interesse, fatos históricos, a exemplo da farsa de Inês Pereira), ou autos (que procuram mostrar os vícios morais de maneira fácil de compreender e têm inspiração religiosa).
O estilo ácido da linguagem, a caricatura social e a ironia fazem parte do estilo vicentino, o qual destila sua observação por entre todas as esferas de Portugal. Padres, alcoviteiras, ladrões, todos merecem um olhar crítico do autor, o qual busca elaborar um discurso pedagógico sobre seus maus costumes.
Atente-se para isso: apesar de muitas vezes ouvirmos que Gil Vicente critica todas as pessoas de uma camada social, não é bem isso que é feito. Ele critica, sim, as pessoas que representam essas camadas, mas o alvo de suas analises são os maus elementos que as compõem. Se fala em um padre, é um padre que agiu contra seus votos; se critica um juiz, é um juiz corrupto, e assim por diante.
A ação se passa em um lugar imaginário: um rio, provavelmente o Estige, citado em “A Divina Comédia” de Dante Alighieri como o rio que leva ao inferno, o qual tem um recanto diferenciado (círculo infernal) para cada tipo de pecado. A influência de Dante na obra de Gil Vicente é notável: em ambas as obras, pode-se notar a repartição das imagens de acordo com o crime / pecado cometido em vida, facilitando, assim, a compreensão do leitor quanto à condenação de cada alma. Encontram-se, nas margens desse rio, dois barcos, um comandada por uma anjo (cuja linguagem é séria, solene) e outra comandada pelo Diabo e um ajudante (a fala do Diabo é irônica, zombeteira). Há quem diga que as falas dos personagens anjo/demônio ilustrem, respectivamente, os julgamentos que a sociedade e Gil Vicente faziam dos condenados.
Cada uma das almas, ao entrar em cena, carrega um instrumento que em vida lhe foi útil na prática de seus delitos, e que agora serve como marca de condenação.
Não há uma sequência perfeita para a entrada dos personagens, uma vez que é fragmentada para facilitar a compreensão dos julgamentos aplicados. Tal característica é baseada em um preceito das antigas comédias latinas e gregas, calcadas no preceito do ridendo castigat mores, ou seja, “rindo, castiga-se a moral”. Acreditava-se que o riso era uma das maiores manifestações de sabedoria do ser, que na comédia reconhece os defeitos que ele apresenta e percebe os ridículos de sua conduta. Era uma tentativa de melhorar o comportamento das pessoas.
Lista de personagens
Fidalgo: representa a nobreza, que chega com um pajem, uma roupagem exagerada e uma cadeira de enconsto, elementos característicos de seu status social. O diabo alega que o Fidalgo o acompanhará por ter tido uma vida de luxúria e de pecados. Ao Fidalgo, nada lhe valem as “compras” de indulgências, ou orações encomendadas. A crítica à nobreza é centrada nos dois principais defeitos humanos: o orgulho e a prática da tirania.
Onzeneiro (usurário, agiota): o segundo personagem a ser inquirido é o Onzeneiro, usuário que ao chegar à barca do Diabo descobre que seu rico dinheiro ficara em terra. Utilizando o pretexto de ir buscar o dinheiro, tenta convencer o Diabo a deixá-lo retornar, mas acaba cedendo às exigências do julgamento.
Parvo (o Bobo): um dos poucos a não ser condenado ao Inferno. O Parvo chega desprovido de tudo, é simples, sem malícia e consegue driblar o Diabo, e até injuriá-lo. Sua linguagem é marcada pelo uso de algumas palavras aparentemente sem nexo quando se refere ao Diabo, xingando-o. Ao passar pela barca do Anjo, diz ser ninguém. Por sua humildade e por seus verdadeiros valores, é conduzido ao Paraíso.
Sapateiro: representante dos mestres de ofício (artesãos), chega à embarcação do Diabo carregando seu instrumento de trabalho, o avental e as formas. Engana na vida e procura enganar o Diabo, que espertamente não se deixa levar por seus artifícios.
Frade: o Frade é alegre, cantante, bom dançarino e mau-caráter. Acompanhado de sua amante, uma espada e um escudo, o Frade acredita que por ter rezado e estar a serviço da fé, deveria ser perdoado de seus pecados mundanos, mas contra suas expectativas, é condenado ao fogo do inferno. Deve-se notar que Gil Vicente desfecha ardorosa crítica ao clero, acreditando-o incapaz de pregar as três coisas mais simples: a paz, a verdade e a fé, uma vez que não é capaz de cumprir com seus votos.
Brísida Vaz (prostituta e aliciadora): misto de alcoviteira e feiticeira. Por sua devassidão e falta de escrúpulos, é condenada. Personagem interessante que faz o público leitor conhecer a qualidade moral de outros personagens que com ela se relacionaram. Entra em cena carregando uma carga “simples”: três armários de mentir, cinco cofres de confusões, alguns roubos alheios, jóias de se usar, seiscentos hímens postiços, três arcas de feitiços, duas almofadas de encobrir, um estrado de cortiça e uma casa movediça (trata-se de um prostíbulo móvel, de montar e desmontar).
Judeu: entra acompanhado de seu bode. Deplorado por todos, até mesmo pelo Diabo que quase se recusa a levá-lo, é igualmente condenado, inclusive por não seguir os preceitos religiosos da fé cristã. Bom lembrar que, durante o reinado de D. Manuel, houve uma perseguição aos judeus visando à sua expulsão do território português; alguns se foram, carregando grandes fortunas; outros, converteram-se ao cristianismo, sendo tachados cristãos novos. A posição de Gil Vicente, diferente do que é ilustrado na obra, é de defender os judeus. O exemplo desse representante é o de um mau judeu, que não respeita as datas sagradas e come as carnes que lhe são proibidas. O bode, que é citado, é símbolo de uma passagem bíblica: para que se expiassem os pecados de uma pessoa, esta deveria sussurrar seus erros nos ouvidos de um bode e soltá-lo no deserto. Daí a expressão bode expiatório: aquele que paga pelos pecados de outra pessoa.Curiosamente, ele não é benquisto nem pelo anjo, nem pelo Diabo, sendo levado ao inferno rebocado pela barca dos danados, não lhe é permitido ir junto aos demais.
Corregedor e o Procurador: ambos representantes do judiciário. Juiz e advogado deviam ser exemplos de bom comportamento e acabam sendo condenados justamente por serem tão imorais quanto os mais imorais dos mortais, manipulando a justiça de acordo com as propinas recebidas. Entram carregando diversos “autos” (ofícios, documentos que servem apenas à burocracia e à morosidade dos processos). De acordo com o Diabo, são uma carga “gentil”, já que alimentam fartamente o fogo do inferno. Além disso, ambos empregam termos em latim, cheio de erros, que servem como tentativa de enganar o Diabo, mas que de nada vale, pois este se mostra conhecedor da língua (mais uma crítica: o latim era empregado como língua oficial da Igreja Católica e da justiça. Ora, aos dois o autor condena; portanto, uma linguagem mal-empregada pode servir também aos desígnios do demônio.
Enforcado: chega ao batel, acredita ter o perdão garantido: seu julgamento terreno e posterior condenação à morte o teriam redimido de seus pecados, mas é condenado também a ir para o Inferno. Na verdade, ele é um “laranja”: assumiu os crimes de uma outro crendo ser liberado posteriormente. Não é o que acontece.
Cavaleiros: finalmente chegam à barca quatro cavaleiros cruzados, que lutam pelo triunfo da fé cristã e morrem em poder dos mouros. Obviamente, com uma ficha impecável, serão todos julgados e perdoados.
Quem sou Eu?
- Otacílio Teodoro Junior
- Olá. Sou formado em Letras pelas Faculdades Integradas Módulo, em Caraguatatuba, pós-graduado em Língua Portuguesa pela PUC-SP. Leciono Língua Portuguesa e Literatura no Colégio Objetivo de Ubatuba e no Cusrinho Pré- Vestibular DeGrau desde 2006. Adoro o que faço, creio que escolhi a profissão adequada, pois tenho a oportunidade de conhecer pessoas, proporcionar um ensino de qualidade e,principalmente, conversar!
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Auto da barca do Inferno
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